A vida não é (ou não deveria ser) filme pornô

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Eu achava que ele só queria causar uma boa primeira impressão, mostrar habilidades. Mas lá pela terceira vez comecei a me incomodar com o que parecia uma maratona sexual. O repertório era vasto.

Tinha a sensação de que ele contava os movimentos, como numa ginástica aeróbica, antes de passar para a posição número sete. Quando eu começava a ficar animada, lá vinha o próximo contorcionismo. Porque não basta variar, tem que fazer a coreografia todinha do Cirque Du Soleil.

E ainda tinha o gran finale, acompanhado de grunhidos e urrinhos. No dia em que ele brincou de mangueirinha, espalhando esperma para todo lado, eu broxei, enquanto desviava e segurava a risada. Desisti antes que ele começasse a dar soquinhos no ar ou batesse no peito, tipo Tarzan.

É divertido, pode parecer excitante, as estrelas de filmes pornôs têm cara de que realmente gostam de toda aquela ação, mas a vida não é filme, e se tem um gênero que não tem nada a ver com a realidade é o de sacanagem.

Talvez você não faça o tipo contorcionista, mas não se dá conta de que filmes pornô acabam tendo influências nas expectativas que você leva para cama e no jeito que transa com alguém.

Para começar, encare a realidade. Mulheres comuns estão a léguas de distância das atrizes desse tipo de filme. Além de serem sempre magras e peitudas, elas não têm um único pelo no corpo a não ser na cabeça. “Meu namorado viciou na brazilian wax (tudo raspado) e quem sofre sou eu”, reclama uma amiga. “Ele diz que fica mais bonito.” Desde quando precisa ser bonito?

As moças do entretenimento também estão sempre animadas, sempre molhadas e sempre dispostas a tudo, mesmo com preliminares um tanto subestimadas e às vezes meio agressivas. Em 30 segundos de sexo oral a garota sempre tem um orgasmo – o primeiro de muitos. Na vida real, dá um trabalhão achar o clitóris, estimular a coisinha o tempo todo no lugar certo, sem que a parceira pareça um flanelinha: “mais para a direita, mais para a esquerda, mais rápido, meeeeenos…”

Você pode sentir o maior orgulho do seu pinto, mas não espere uma salva de palmas quando ficar pelado com uma ereção. No pornô quanto maior, melhor. A atriz olha e fala “nossa, como você é enorme, como você é grosso”. Pinto enorme e muito grosso não faz tanto sucesso com a maioria das mulheres. Sem falar que você corre o risco de encontrar alguém que não ache essa Coca-Cola toda. Sem falar que essa exibição não é excitante, é constrangedora.

Há várias outras coisas que parecem não apenas simples como prazerosas quando assistimos a um pornô.  Sexo anal, por exemplo. Atrizes fazem cara de quem ganhou um cartão de crédito ilimitado, quando na realidade tem mulher que não faria nem se fosse paga. Pode chamar de frescura, mas muitas não estão interessadas. Apenas uma em cada três vão experimentar sexo anal na vida e a maioria delas não repetirá a dose.

Outra fixação que muitos homens parecem ter, comum em qualquer filminho de sacanagem, é o momento do orgasmo. “Todos os caras com quem me relacionei vez ou outra pediam para gozar no meu rosto. Não sei qual é a graça”, disse uma leitora. A graça, segundo os especialistas, é a sensação de poder que o homem sente. Alguns compram motos barulhentas, outros querem gozar na cara das moças. Sugiro um psicólogo.

Para finalizar, um clássico dos pornôs e nas melhores casas de família, sexo oral com direito a “garganta profunda”. É divertido, desde que você não se empolgue, arranque os cabelos e quase mate a moça engasgada.

Eu sei, nem sempre é fácil achar equilíbrio entre o que você quer e o que as mulheres esperam. Lembre-se de que o gênero de filme que mais faz sucesso entre a maioria das meninas são as comédias românticas. Misture uma dose delas com um tanto de sacanagem e você certamente terá um enredo de sucesso.

 

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Sobre mariliz pereira jorge

Sou jornalista, moro no Rio, mas vivo com um pé – e metade do coração – em São Paulo, onde morei até maio de 2012. Adoro o cheiro do aeroporto, de andar em calçadas desconhecidas, de ouvir línguas que não entendo! De dançar até as pernas cansarem e de dar risada até a barriga doer… Não vivo sem Coltrane, cerveja gelada e sorvete no inverno. Adoro gente. Adoro tentar entender as loucuras da alma. Da minha e dos outros. E gosto de transformar isso em palavras, em frases e histórias. Hoje, sou colunista da Folha de S.Paulo, das revistas Harper's Bazaar e GQ e dona do meu nariz. Todo conteúdo publicado no blog é de minha autoria. Fui editora da Folha de S.Paulo, da TV Globo, das revistas Women’s Health e Men’s Health, repórter de Veja, além de ter contribuído para veículos como O Estado de S.Paulo, revistas Nova, VIP, Viva Saúde entre outros. Dei minhas voltinhas no mundo da publicidade, produzindo conteúdo para Brastemp, Consul e Itaú.
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Uma resposta para A vida não é (ou não deveria ser) filme pornô

  1. fregodoy disse:

    Olá, Mariliz. O texto é bem legal. Como consegue isso com tanta frequência? Cabeça de homem é mesmo filme de sacanagem e mulher é mesmo filme romântico. Ao menos na média. Ainda acho que a cabeça do homem é mais divertida e caliente e, a médio-longo prazo, é um hábito mais renovador, mas acredito no equilíbrio. Sempre. Agora, qdo diz “precisa ser bonito?”, eu devolvo a pergunta pra vc? Tem um texto seu que fala exatamente sobre a depilação masculina (se não me engano) e lá vc chegou à conclusão que tinha que ser, ao menos, bema aparado. Agora, cada um com seu grau de exigência, certo? De qquer forma, parabéns pelo texto.

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